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Quando ninguém entende a mãe...



“Ninguém me entende”.


Essa é uma queixa que costuma aparecer nos meus atendimentos com mães.

Essas mulheres se sentem sozinhas em suas dores, pois não encontram, no seu entorno, pessoas que consigam entender e legitimar o que sentem. Isso racai, sobretudo, na figura do marido.


De fato, há muitas pessoas que não conseguem ter capacidade e nem vontade de se aprofundar nas questões dos outros. Pessoas que, na maioria das vezes, são rasas nas suas próprias questões. É impossível conseguir atingir camadas profundas de outro ser humano se você não faz esse caminho com você mesmo. É por isso, por sinal, que terapeutas precisam fazer terapia. E é por isso também que, para conseguirmos desatar os nós com os outros, precisamos desatar antes os nossos próprios nós.


Essa é o nosso ponto central nesse texto. E para tornar esse tema mais fácil de ser entendido, vamos trazer um caso que atendi e que pode fazer você se identificar:

Lúcia é uma mulher de 30 anos, casada e mãe de um menino de 2 anos. Procura a análise pois se sente muito incompreendida pela família (sobretudo o marido) e tem constantes ataques de fúria. Tem medo de acabar se tornando uma mãe violenta e ruim. E apesar de sentir que o marido muitas vezes não a entende, tem medo que os ataques de raiva acabem desandando o seu casamento.


Logo nas primeiras sessões Lúcia conta a história de sua infância marcada por muita omissão. Vinda de uma família humilde, Lúcia viu os pais trabalhando incansavelmente para manter a família de 5 irmãos. Graças a ausência física dos pais e um ambiente familiar conturbado, Lúcia relata um sentimento de desatenção e frieza em relação às suas necessidades. Lembra-se de um momento específico, quando era criança, que se queixou de intensas dores de barriga e foi desacreditada por alguns dias pela mãe, que a acusava de estar inventando a situação para chamar a atenção e faltar à aula. Porém, depois do surgimento de febre e a queixa contínua de dor abdominal, os pais resolveram, por fim, procurar ajuda médica e descobriram que o caso era de uma apendicite em estágio bastante avançado, a ponto de supurar.


Durante a adolescência Lúcia também contou com a omissão dos pais, que pouco se importavam com os seus sumiços de dias, abrigada na casa de amigas, além de fazerem vista grossa para o seu uso excessivo de alcool.


Durante o seu processo de análise, Lúcia pode acessar esse sentimento de nunca ter sido ouvida e atendida. De nunca ter experenciado uma figura materna e paterna que a olhassem e vissem suas necessidades, característica comum de pais que estão conectados com seus filhos.


Você que é mãe sabe do que eu estou falando. Quando estamos conectadas profundamente aos nossos filhos, mesmo que eles ainda não falem, conseguimos aprender, ao longo do tempo, quando eles tem fome, quando estão com dor, quando estão ficando doentes, quando estão tristes, quando estão frustrados… Interpretamos expressões, gestos, sons que estão muito além de palavras. E mais: vamos ajudando a criança a transformar essa sensações e sentimentos em palavras. Quantas vezes pegamos nosso filho choroso no colo e dizemos “ok, já entendi que você tá com fome” ou então “vou colocar ele na cama porque ele está com sono”.


Ao identificarmos e verbalizarmos para a criança aquilo que foi captado pela nossa intuição, ela, aos poucos, vai criando consciência do que ela sente e dando nome a isso.


Porém, alguns pais, por diversos motivos, não conseguem estabelecer esse nível de conexão inicial e a criança, mesmo depois de adulta, continua buscando essa compreensão absoluta das figuras parentais através de outras pessoas.


Porém, essa busca é sempre bastante frustrada, já que em outros tipos de relação esse entendimento intuitivo sobre o outro, que está para além das palavras, é muito difícil de ser atingido. Por isso a pessoa acaba tendo uma sensação constante de nunca ser entendida pelas pessoas ao redor.


Em se tratando de relacionamentos amorosos, essa frustração tende a ser bastante intensa e evidente, já que o parceiro acaba sendo a figura de maior intimidade do momento. E se consideramos que boa parte dos homens não são educados para a sensibilidade e cuidado, essa compreensão se torna mais difícil ainda.


No caso da paciente em questão, foram necessários alguns meses de análise para que ela pudesse aprender a conhecer seus sentimentos, nomear de forma clara os seus conflitos e conseguir comunicar, através de palavras, o que sentia, esperava e necessitava do marido. Um trabalho que, no passado, ela não teve a oportunidade de desenvolver pela ausência física e afetiva das suas figuras parentais. O ambiente terapêutico lhe propiciou a experiência de amadurecer psiquicamente para olhar para si e estabelecer novas conexões com as pessoas da sua convivência, agora de maneira saudável.



A verdade é que não há como ser entendido sem se entender primeiro. Ao fazermos esse movimento, de dentro para fora, conseguimos ser mais claras com as pessoas ao redor e contar com uma maior compreensão de todos. E diante daqueles que insistem em não validar o que sentimos, munidas de maneira muito lúcida sobre as nossas necessidades, vamos tranquilamente seguindo o nosso rumo sem elas.


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Ana Clara Vidal

Psicanalista


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